192 Verão Parte 2

Written by: F G Gonzalez

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Ao acordar na manhã seguinte, Willen reparou que o braço direito estava dormente, Lila ainda dormia deitada por cima dele, a cabeça e um dos braços repousados sobre seu peito, as pernas entrelaçadas com as dele.

Tentando não acordá-la, ele se ajeitou na cama até sentir que o sangue voltara a circular normalmente, trincando os dentes por causa do formigamento. Enquanto esperava que a sensação passasse, olhou em volta do quarto e ficou imaginando até quando poderiam conviver daquela maneira.

Os dois tinham se conhecido cerca de sete anos atrás, quando Willen viera até a taberna comemorar com os amigos após ser sagrado um guerreiro. Lila estava servindo a mesa deles naquela noite, no entanto ele sabia que muitos dos homens e mulheres que trabalhavam na Poço sem Fundo também vendiam seus corpos, e com ela não tinha sido diferente.

De pele clara, estatura baixa e corpo cheio de curvas, rosto redondo e comum, cujo maior defeito era o nariz um pouco avantajado, ela encantou o jovem príncipe com facilidade.

Eles trocaram algumas palavras sempre que Lila passava pela mesa em que estava com seus amigos, até que por fim Willen tocou no assunto do sexo e ela apenas estendeu a mão, convidando-o. Os dois subiram até um dos quartos e passaram a noite juntos pela primeira vez.

Willen já tinha estado com prostitutas antes, mas havia algo diferente em Lila que o fez procurá-la por várias noites seguidas, algo que ele nunca conseguiu explicar.

A cada novo encontro, os dois conversavam, se conheciam e se gostavam um pouco mais. Lila contou sobre sua infância em uma fazenda na região e como acabara precisando se mudar para a cidade, Willen por sua vez, contou a história que havia criado para seu nome falso, um soldado do rei Harland, que nascera e crescera em Colina Trovoada.

Em uma das manhãs, enquanto ele se vestia para voltar à cidadela, Lila havia perguntado em tom de brincadeira se deveria esperá-lo naquela noite também.

Willen respondeu que não, inventando algo sobre ter passado noites demais fora do alojamento e que mais nenhum de seus colegas o substituiria em seus turnos como sentinela. Porém, ao ver a expressão de desapontamento no rosto dela, decidiu fazer uma proposta, e após passarem o restante do dia discutindo, chegaram a um acordo que ambos seguiam até então.

Lila continuaria trabalhando na taberna, servindo mesas, ajudando na cozinha e limpando os quartos e o salão, entretanto não iria mais se deitar com nenhum cliente. Em troca, Willen pagaria o aluguel de um bom quarto para ela morar e não mais precisar dividir o dormitório comunitário dos empregados no subsolo, além de prometer passar uma noite com ela em dias alternados.

O acordo era bom para os dois. Lila já tinha mais de sessenta anos e começava a ficar velha para aquele tipo de trabalho, ela também conseguiria guardar mais dinheiro agora que não precisava pagar pela moradia. Willen gostava muito da companhia dela, das conversas que tinham e de como podia ser mais sincero em suas ações e palavras, uma vez que não precisava se preocupar em agir como um membro da família real.

Ao mesmo tempo, acreditava que, embora estivesse recebendo dinheiro, Lila gostava verdadeiramente dele e até mesmo os via como um casal. Uma imagem com a qual simpatizava, no entanto ele sabia que a relação era uma fantasia e não poderia durar para sempre. Por diversas vezes se perguntou como ela reagiria quando tudo chegasse ao fim.

— Você está bastante pensativo hoje. — disse uma voz doce e suave. Interrompendo seus pensamentos, Willen voltou o rosto para baixo e encontrou o olhar de Lila, a cabeça dela ainda apoiada sobre seu peito. — Já faz algum tempo que estou acordada te observando, mas não parecia que você ia me notar tão cedo. Em que estava pensando?

— Que nós dois precisamos tomar um banho urgente. — Ele respondeu, envolvendo o corpo dela com o braço direito e trazendo-a de encontro ao seu.

— Você já estava precisando de um quando chegou ontem a noite, mas depois de todo aquele exercício que nós fizemos, eu certamente preciso também. — Lila rebateu dando um sorriso e fingindo empurrá-lo para longe. — Está com fome?

— Estou faminto! — respondeu Willen, apertando mais o abraço e puxando-a para cima dele com as duas mãos.

— Me solte então. Ou você acha que a comida virá até aqui sozinha?

Sorrindo, ele a segurou por mais alguns instantes, mas cedeu após ser empurrado outra vez. Lila o recompensou com um beijo rápido antes de se levantar e caminhar até o outro lado do quarto, onde se sentou no chão em frente a um pequeno espelho e passou a escovar os escuros cabelos rebeldes.

Enquanto ela se arrumava, Willen admirou suas costas nuas por alguns instantes. Em seguida, ainda relembrando o passado, voltou os olhos para o lugar que haviam dividido por tantas noites e manhãs nos últimos anos.

O quarto no terceiro andar era um dos maiores da taberna, embora ainda fosse modesto. Mais da metade do cômodo estava ocupado por uma larga cama de palha, e no espaço restante ficavam os poucos pertences de Lila, uma mesa baixa e um banco de madeira, o pequeno espelho de prata em que ela estava se admirando e um velho baú, no qual eram guardadas todas as suas roupas, além do colar e da pulseira que Willen comprara para ela. A única janela estava voltada para o Norte, proporcionando uma bela vista dos limites da cidade e dos topos das colinas além de seus muros.

Logo que terminou de se pentear, Lila colocou o mesmo vestido da noite anterior e saiu do quarto. Voltou pouco tempo depois, trazendo uma grande bacia de madeira de onde tirou algumas frutas, metade de um queijo velho, dois pães murchos, uma jarra de água e dois copos, além de alguns retalhos de pano para eles se lavarem.

— Pedi que esquentassem um pouco de água. — Ela disse ao se sentar ao lado de Willen e depositar a bacia em frente a eles. — Assim que estiver quente vão trazer para a gente. — Completou, escolhendo uma maçã já meio passada e dando uma mordida.

— Obrigado. — respondeu Willen, também se sentando e servindo água para os dois. Depois de beber o copo inteiro, voltou a encher e esvaziá-lo, antes de começar a partir um dos pães em pequenos pedaços e comê-los.

— Faz dias que você não aparece, por acaso sabe quando vai poder voltar para me ver? — perguntou Lila, após algum tempo, colocando o miolo da maçã junto com as outras frutas e pegando uma segunda.

— Uma companhia deixou a cidade seis dias atrás para patrulhar as terras ao Leste. Estamos com falta de soldados na ronda da cidade, por isso precisei fazer turnos extras de vigia.

— Então você não virá hoje à noite?

— Vou cobrar umas dívidas e tentar chegar antes que você termine de trabalhar, mas não posso prometer nada. — Willen respondeu, colocando o braço em volta dela e a beijando no rosto.

— Tudo bem, eu entendo. — disse Lila, virando-se para ele e o beijando com desejo. — Então é melhor aproveitarmos que você está aqui agora.

O salão começava a encher com fregueses para o almoço quando Willen e Lila desceram as escadas. Estando atrasada, ela se despediu rapidamente com um beijo antes de seguir para a cozinha.

Ele a acompanhou com os olhos até vê-la atravessar a porta atrás do balcão, só então se virou e caminhou para fora da taberna, sendo ofuscado pela claridade do dia assim que cruzou a soleira.

O salão da Poço sem fundo possuía apenas três janelas, recebendo pouca luminosidade de fora, e apesar de suas diversas lanternas ficarem continuamente acesas, o cômodo nunca ficava mais claro que a rua durante o dia. A falta de nuvens para bloquear a luz dos sóis gêmeos, só tornava a mudança mais brusca naquela manhã.

Willen esperou junto à soleira por um momento enquanto seus olhos se acostumavam com a luminosidade, tentar caminhar em meio ao intenso fluxo de pessoas sem enxergar seria muito arriscado.

Composta principalmente por lojas, armazéns e hospedarias, a parte baixa de Colina Trovoada estava sempre movimentada. Desde o início da manhã até o final da tarde era possível ver em suas ruas centenas de pessoas, carroças, várias espécies de animais e até algumas liteiras ladeadas por homens de armas.

As ruas em geral eram bastante largas, contudo, em alguns pontos era preciso forçar passagem entre a multidão. Como no caso de um vendedor oferecendo preços realmente baixos, ou quando havia a apresentação de um artista em uma das esquinas. Também era possível se ver sem escolha a não ser retroceder e fazer um desvio, como quando duas carroças em sentido contrário se encontravam em um trecho mais estreito.

Porém, conforme ele avançava na direção do topo da colina as casas se tornavam mais numerosas e a quantidade de pessoas diminuía. O tamanho e o formato das construções também variavam, sendo que nas proximidades da parte baixa eram pequenas e amontoadas, prédios marrons com dois ou três andares, enquanto que ao redor da cidadela elas eram maiores, mais coloridas e mais espaçadas. Verdadeiras mansões com fontes, alamedas e jardins, separadas por conjuntos próprios de muros.

A concentração de pessoas só voltava a crescer ao se chegar na Praça das Árvores, em frente ao templo dos Deuses Menores, de onde aqueles mais devotos entravam e saiam com regularidade. Existiam outros santuários espalhados pela cidade, mas aquele era o maior e o mais visitado.

Quase ninguém caminhava na direção da cidadela, os peticionários só eram ouvidos na parte da manhã e a trocas de turnos da guarda só ocorriam na alvorada e no ocaso. Desse modo, quando o príncipe se aproximou as únicas pessoas à vista eram os quatro soldados vigiando o portão e alguns outros que patrulhavam a muralha interna.

Logo que alcançou a entrada, Willen foi informado por um dos soldados que o rei estava a sua espera, sem demora ele seguiu para o castelo e subiu até o topo da torre Sul onde ficavam os aposentos reais e a sala onde o conselho se reunia.

O quarto em si ocupava toda a área da torre, com a sala anexa situada sobre o grande salão. Esta não possuía muitos móveis, tendo apenas uma longa mesa de madeira com dez cadeiras em cada lado e mais uma à cabeceira. Uma das paredes era inteiramente ocupada por um mapa detalhado do continente, enquanto a oposta possuía estantes, repletas de livros e pergaminhos, intercaladas com as janelas. Na terceira parede havia somente um estandarte com o brasão real, quatro raios prateados sobre um fundo azul escuro.

As três janelas eram voltadas para o Sul, de modo que não era possível enxergar a cidade daquele ponto, somente a Praça das Árvores e a muralha externa, dificultando que a fumaça e os odores de Colina Trovoada fossem sentidos no salão.

Harland encontrava-se sentado em seu lugar na cabeceira da mesa, comendo uma peça de carne diretamente do osso, tendo como companhia apenas um serviçal de pé a seu lado e segurando uma jarra de vinho.

Mesmo sentado, a altura do rei era descomunal, sendo uma das poucas pessoas que Willen conhecia mais altas que ele. Além da estatura, os ombros largos, os braços fortes e a voz grave e poderosa ajudaram a criar o rumor de haver sangue dos enormes Gidwans em suas veias. Apesar de manter a postura ereta, e de ainda conseguir vestir uma armadura e brandir uma espada, a idade lhe roubara muito do seu antigo vigor. Os músculos se tinham se tornado flácidos e os cabelos pretos começavam a perder espaço para os brancos, o mesmo efeito ocorria na barba.

Algo a se esperar após cento e oitenta e seis anos, contudo os olhos escuros continuavam intensos e cheios de vida.

— Olá tio, sua sessão com os peticionários foi muito cansativa hoje? — perguntou Willen ao se aproximar da mesa.

Harland não respondeu, arrancou um último pedaço de carne e jogou o osso no prato de metal à sua frente. Depois, ainda mastigando, virou-se para o serviçal e disse:

— Deixe-nos. Preciso conversar à sós com meu sobrinho. — O serviçal então fez uma mesura e se virou para a porta, mas parou logo no terceiro passo, ao ouvir o rei acrescentar. — Leve este prato com você, mas deixe o vinho.

Sentado à duas cadeiras do tio, Willen observou o homem recolher os restos de comida e se afastar novamente, somente quando a porta foi fechada é que ele voltou os olhos para o rei, inquieto.

Porém o rei continuou calado, observando o mapa na parede enquanto bebia do cálice de prata. Quando voltou a falar sua voz era baixa e controlada, mas denotava irritação.

— Seu mestre me contou que há vários dias você não tem comparecido às suas aulas de arcanismo, e que mesmo antes disso sua presença era muito esporádica. O que tem feito de tão importante durante as manhãs?

— Nada de especial. — respondeu Willen.

— Então não há motivo para faltar aos treinamentos! — disse Harland, elevando um pouco a voz. — A não ser que você acredite ser capaz de enfrentar um arcano ou toda uma tropa de soldados inimigos sozinho.

— Não posso dizer que ganharia em qualquer uma dessas situações, mas certamente consigo duelar com um arcano. — Willen respondeu no mesmo tom. — Sei que meus poderes seriam úteis em combate, só não vejo a necessidade de continuar praticando algo que já domino.

— Você continua treinando com Ellon quase todos os dias, apesar de já saber todas as técnicas e golpes que se pode utilizar com a espada, o machado ou a lança. Ele próprio ainda se exercita, embora seja um guerreiro a mais de cem anos. A questão não é ter o domínio de suas habilidades, mas ter familiaridade com elas.

— De que adiantam todas essas aulas se eu não posso utilizar nada do que aprendo? Os torneios me permitem lutar contra outros guerreiros, mas como posso testar minha capacidade se os oponentes temem me machucar? — Conforme falava Willen foi elevando ainda mais a voz, sem conseguir conter o antigo ressentimento com o tio. Estava quase gritando no final. — O senhor me protege demais e me trata como uma criança, não deixa que eu tenha nenhum comprometimento com o reino! Sei que seus dois filhos morreram em batalha na guerra da conquista e que sou o único herdeiro de linhagem direta com o trono, mas me manter prisioneiro na cidade ou só permitir que eu saia escoltado por um exército não é a solução. Eu preciso aprender a liderar tropas, preciso…

— Quieto garoto! — O rei gritou, batendo com o punho na mesa e fazendo-a tremer.

Willen obedeceu de imediato, conhecia o temperamento do tio e não queria provocar sua ira. O rosto de Harland estava vincado de raiva, porém quando voltou a falar, sua voz estava baixa e controlada novamente:

— Antes de pedir por mais responsabilidades ou para ser tratado como um adulto, faça por merecer e cumpra com as suas obrigações. Participe das reuniões do conselho quando for convocado, defina se vai retomar suas aulas de arcanismo ou as encerre de uma vez, e deixe de sair todas as noites para beber nas tabernas! — Harland tomou mais alguns goles de vinho antes de continuar, seu tom já não era de repreensão, mas de preocupação. — Sei que, como você mesmo disse, não posso protegê-lo para sempre, assim como não pude fazer com meus filhos ou minha esposa, no entanto existem muitas expectativas sobre o seu futuro como rei de Vasatiko e vou manter você confinado na cidade até que prove ser capaz de se defender sozinho ou pelo menos deixar de agir como um tolo.

O silêncio entre os dois se estendeu por um longo tempo, o jovem príncipe sabia que se não obedecesse continuaria vivendo na sombra do tio, sem ter nenhum poder real.

— Você tem certeza que aquela sua mulher na Poço sem Fundo está se cuidando para não engravidar? — Harland perguntou de repente.

— Sim! — Willen respondeu, surpreso com a mudança de assunto e com o conhecimento do tio. — Ela diz que não deseja criar um filho em uma taberna e acredita que por enquanto não podemos manter uma casa na cidade. Mesmo assim, a cada vinte dias eu levo para ela uma infusão do chá de pedra.

— Ótimo. — disse Harland. — A da Monte de Palha também?

Incapaz de falar, o sobrinho apenas assentiu.

— Muito bem! Ao menos nesse ponto você está agindo com inteligência.

Fantasia Sword and Sorcery Colina Trovoada Pt-Br FGGonzalez

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